Crisálidas
Machado de Assis
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MUSA CONSOLATRIX QUE A MÃO do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida, Musa consoladora, É no teu seio amigo e sossegado Que o poeta respira o suave sono. Não há, não há contigo, Nem dor aguda, nem sombrios ermos; Da tua voz os namorados cantos Enchem, povoam tudo De íntima paz, de vida e de conforto. Ante esta voz que as dores adormece, E muda o agudo espinho em flor cheirosa Que vales tu, desilusão dos homens? Tu que podes, ó tempo? A alma triste do poeta sobrenada À enchente das angústias, E, afrontando o rugido da tormenta, Passa cantando, alcíone divina. Musa consoladora, Quando da minha fronte de mancebo A última ilusão cair, bem como Folha amarela e seca Que ao chão atira a viração do outono, Ah! no teu seio amigo Acolhe-me,— e haverá minha alma aflita, Em vez de algumas ilusões que teve, A paz, o último bem, último e puro! VISIO ERAS PÁLIDA. E os cabelos,
Aéreos, soltos novelos Sobre as espáduas caíam... Os olhos meio cerrados De volúpia e de ternura Entre lágrimas luziam... E os braços entrelaçados, Como cingindo a ventura, Ao teu seio me cingiam... Depois, naquele delírio, Suave, doce martírio De pouquíssimos instantes Os tous lábios sequiosos. Frios, trêmulos, trocavam Os beijos mais delirantes E no supremo dos gozos Ante os anjos se casavam Nossas almas palpitantes.. Depois... depois a verdade, A fria realidade, A solidão, a tristeza; Daquele sonho desperto, Olhei... silêncio de morte Respirava a natureza — Era a terra, era o deserto, Fora-se o doce transporte, Restava a fria certeza. Desfizera-se a mentira: Tudo aos meus olhos fugira; Tu e o teu olhar ardente, Lábios trêmulos e frios, O abraço longo e apertado. O beijo doce e veemente; Restavam meus desvarios, E o incessante cuidado, E a fantasia doente. E agora te vejo. E fria Tão outra estás da que eu via Naquele sonho encantado! És outra, calma, discreta, Com o olhar indiferente, Tão outro do olhar sonhado, Que a minha alma de peota Não se vê a imagem presente Foi a visão do passado Foi, sim, mas visão apenas; Daquelas visões amenas Que à mente dos infelizes Descem vivas e animadas, Cheias de luz e esperança E de celestes matizes: Mas, apenas dissipadas, Fica uma leve lembrança, Não ficam outras raízes. Inda assim, embora sonho, Mas, sonho doce e risonho, Desse-me Deus que fingida Tivesse aquela ventura Noite por noite, hora a hora, No que me resta de vida, Que, já livre da amargura, Alma, que em dores me chora, Chorara de agradecida! |
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